Todos os momentos em que abria o
livro, tinha conversas sem fim à vista com alguém que só tinha vida
naquele compasso de tempo. Sim, ela existiu na realidade e deixou o
diário que permitiu a sua eternização.
Contava-me desde coisas banais,
características do período da adolescência, até às atrocidades que
os homens cometiam uns contra os outros. Foi pela ganância e pela
sede de poder de alguns homens que a família dela, tal como tantas
outras, se viu obrigada a alienar-se da sociedade. Viveram durante
alguns anos confinados a um anexo (“o anexo secreto”). O diário, que
serviu então de ponte entre nós foi o amigo, o confidente que Anne
estava impedida de ter.
Por momentos, vi a guerra; vi-a com
uns olhos que não os meus; vi-a pelo livro. Aquela foi a minha
máquina do tempo. Fui para uma época que não a minha, para um
complexo histórico-social que não o meu.
São testemunhos como os de Anne,
que permitem à humanidade, ainda que psiquicamente, alcançar a dor e
a destruição provocada pelos mais recônditos requintes de malvadez
de que o homem é capaz, para que erros crassos como os da 2ª guerra
mundial não se voltem a repetir.