||| ESCOLA SECUNDÁRIA MANUEL DA FONSECA    SANTIAGO DO CACÉM

 
       ||| início    

 

Milagre na Noite de Natal
Bruno Costa - 11º CTA
Texto vencedor do Concurso de Contos de Natal (2005/2006)

 

Milagre

Na noite de Natal

 

Amanheceu. O dia nasceu cinzento e com um leve toque de preto no horizonte. A minha mãe sempre me disse que no Natal nevava. Espero que este ano a neve também caia. Ainda faltam dois dias para o Natal, mas não podia estar mais contente. Tenho o meu pai, a minha mãe, os meus amigos e já fiz a carta ao Pai Natal. Só falta mesmo chegar o dia 25.

Ainda me lembro do ano passado. Junto à nossa árvore grande, que tínhamos colocado na sala, enfeitada com bolas vermelhas e prateadas que contrastavam com o amarelo das paredes da sala que dava um ar quentinho à sala, estavam muitos presentes. Nem queria acreditar quando os abri. Tudo o que eu tinha pedido estava lá. Por momentos esqueci-me de quem tinha à minha volta para entrar num mundo de delírio onde a alegria entrava em mim como uma poção mágica que me fazia dar gritinhos de alegria.

Este ano, a minha mãe quis colocar a árvore junto à lareira. Por mim está tudo bem, mas o meu pai não achou muita piada. Ainda sou muito novo, tenho os meus oito anos, mas já sei dar a minha opinião.

Os meus pais saíram esta manhã de casa e deixaram-me aqui sozinho. Disseram que iam ao centro comercial ajudar o Pai Natal com as compras. Eu entreguei a lista à minha mãe, espero que ela não se esqueça de dar a lista ao Pai Natal. Pedi uma playstation das novas e um jogo do Doraemon. Não quis pedir mais, pois há meninos que precisam de mais coisas.

A manhã foi passando até chegar a hora do almoço. Já tinha fome e a minha mãe deixou o almoço no frigorífico, bastava aquecer no micro-ondas e comer. Como eu sou baixinho tive alguma dificuldade em chegar ao armário para tirar a comida mas com um banquinho consegui lá chegar e colocar a comida a aquecer.

Assim que acabei de almoçar fui para a sala e deitei-me no sofá, que se encontra no meio da sala, em frente à televisão, com a lareira e a árvore de Natal atrás e decidi ligar a televisão. Estava a dar um acidente na televisão:

“Casal de trinta e poucos anos teve um acidente de carro, na saída para o centro comercial. Ainda não foi possível identificar os passageiros, mas daremos notícias a qualquer momento”.

Deve ser simplesmente mais um casal que teve um acidente na estrada. Típico, com a velocidade a que eles andam… Mudei de canal e comecei a ver desenhos animados. Achei estranho quando, à noite a minha mãe e o meu pai não chegaram, mas como ainda tinha um resto do almoço, decidi comer e ir para a cama, pois já era tarde e quando mais depressa eu fosse dormir, mais depressa chegava o dia 24 de Dezembro.

Na manhã seguinte acordei e fui logo ao quarto dos meus pais. Que estranho! Eles não estavam lá… Pensei que o Pai Natal talvez tivesse muitos presentes para comprar e então eles tinham ficado a ajudá-lo mais um bocadinho. Podiam ter-me ligado.

Saí de casa e fui a casa do Francisco. Mal saí à rua voltei a entrar de novo. Estava um gelo lá fora. Fui vestir um casaco quentinho e colocar umas luvas, o barrete e o cachecol. Agora sim, podia ir. O céu continuava negro como no dia anterior. Contrastava com o chão branco. Durante a noite tinha nevado. Todas as estradas estavam inundadas de neve e o trânsito estava cortado. O limpa-neve já tinha passado pelo caminho em frente à minha casa. O bairro tinha simplesmente uns caminhos estreitinhos abertos que permitiam às pessoas circular. Dei graças a Deus quando entrei na casa do Francisco. Ao menos lá dentro estava calor.

Quem veio à porta foi a mãe do Francisco e eu já podia sentir o cheiro da tarte de maçã que a D. Salete estava a fazer. Ela convidou-me a entrar o que eu aceitei prontamente, para não morrer gelado lá fora. Sentei-me no sofá da sala e esperei pelo Francisco. Ele estava a demorar, não havia meio de vir. Já parecia os meus pais. Quando finalmente desceu estava a dar a mesma notícia que eu tinha visto na televisão, só que agora estava a dar na rádio. Ouvi o senhor dizer qualquer coisa sobre alguém que dê pela falta de familiares contacte um número que ele tinha dito. Era uma estupidez ir telefonar. O meu pai e a minha mãe já deviam estar em casa.

O Francisco tinha um novo jogo de cartas para me ensinar. Passámos toda a tarde a jogar às cartas, enrolados numa manta cada um a ouvir o crepitar da madeira na lareira. Foi uma tarde espectacular. No entanto, havia algo que não me saía da cabeça. Os meus pais já deviam ter ligado para saberem se eu estava aqui. Por mais ocupado que o Pai Natal fosse e por mais prendas que ele tivesse, o ano passado não tinham demorado tanto, tinham voltado no mesmo dia.

Disse ao Francisco que me ia embora e ainda fui a tempo de provar uma generosa fatia daquela tarte tão cheirosa que a D. Salete tinha estado a fazer. Tinha um saborzinho a canela que me fazia crescer água na boca. A tarte de maçã da D. Salete era imbatível.

Quando saí da casa do Francisco o frio já parecia ter abrandado. A estrada já estava limpa e já se viam carros a circular.

No caminho para casa encontrei a Mariana, uma amiga minha. Usava uma roupa algo estranha, mas de certa forma engraçada. Usava um casaco rosa, com umas calças azuis e um gorro amarelo. De certa forma, estava na moda, mas não deixava de ser engraçado. Ficámos parados a conversar um bocadinho e eu perguntei-lhe como é que ia ser o Natal dela. A Mariana parecia que estava a adivinhar a pergunta e como rapariga inteligente respondeu prontamente que ia passar o Natal com a família, a abrir os presentes, à espera do Pai Natal e a ver televisão. Parecia ser um Natal engraçado. Eu também já estava a ir para casa, os meus pais já deviam estar preocupados.

Quando estava já ao pé da minha casa encontrei a professora Margarida. A professora Margarida sempre teve aquele jeito amoroso que conquista qualquer um, como qualquer pessoa do norte. Simpática, divertida e com um leve trocar dos “v’s” pelos “b’s”. Como o tema da conversa tinha de ser o Natal perguntei-lhe o mesmo que perguntei à Mariana. A professora respondeu que costumava jogar às cartas com os primos e depois zangavam-se uns com os outros porque ninguém queria perder. No fim, abriam os presentes e eram de novo grandes amigos.

Estava a começar a ficar sol-posto e decidi despedir-me da professora Margarida e ir para casa. A casa ficava semi-escondida por uma árvore gigante que eu nunca soube o nome. A árvore subia até tocar os céus e, o meu pai tinha-me dito que quem conseguisse subir a árvore chegaria ao céu mais depressa. Ao ouvir barulho, escondi-me atrás da árvore. Via os reflexos de umas luzes vermelhas e azuis, mas tive medo de me voltar. Quando finalmente tive coragem, vi que era um carro da polícia. Será que eu tinha feito alguma coisa de mal? Decidi então fugir e mais tarde voltava a casa. Pensando bem, se eles andavam à minha procura, deviam estar à espera de eu chegar a casa, logo não podia ir para casa na noite de Natal, porque eles continuavam lá à minha espera.

Pensei bastante escondido debaixo daquela árvore, até ouvir a confirmação da minha história. Um polícia disse bem alto “Onde está aquele fedelho?”. Foi a gota de água. Decidi ir para casa do Francisco perguntar se podia passar a noite com eles. Quando cheguei, bati. Veio de novo a D. Salete, a mãe do Francisco abrir a porta. Perguntei se ela não me deixava passar a noite com eles. A resposta foi simples e pronta e para minha desilusão, foi não. Mandou-me ir para minha casa ter com os meus pais, que já deviam estar preocupados. Mas eu não podia. Tinha de arranjar outra solução.

A professora Margarida devia compreender a minha situação. Bati à porta, mas ninguém respondeu. Decidi esperar mais um bocado, mas quase a chorar percebi que ninguém responderia. A minha última solução era a Mariana. Decidi então ir até casa da Mariana. Já estava escuro. A neve começava a cair. Estava muito frio e tinha muita fome. Por mais que eu tentasse, os meus lábios roxos não paravam de colar um ao outro e os meus dentes não paravam de tremer e cantar uma canção ritmada de frio. Apesar de toda a roupa que eu trazia, o frio parecia penetrar através dela e entrar directamente pela ponta dos cabelos e ir até à ponta dos pés.

Depois de caminhar pelo que me pareceu uma hora, já estava mesmo escuro. A lua era a minha sorte. Estava lua cheia e conseguia ver mais ou menos o caminho. Bati à porta e veio a Mariana atender. Perguntei se não podia entrar. A Mariana explicou que tinha muitos primos e que não dava para entrar mais ninguém. Muito admirada perguntou-me porque é que eu não estava em casa. Não tive coragem para contar e disse para ela entrar que estava frio. Decidi então ir embora. Podia ser que os polícias já não estivessem na minha casa.

Corri para fora dali e, quando dei por mim exausto, decidi descansar. Sentei-me debaixo duma árvore e chorei. Berrei enquanto os meus pulmões e garganta aguentavam. Já me doía a garganta e os olhos, quando vi aparecer uma luz branca. Um rapaz que se parecia incrivelmente comigo saiu dessa luz branca e veio ter comigo.

- Não chores – disse ele.

- Como queres que eu não chore? A polícia está em minha casa e todos os meus amigos me rejeitaram guarida. Quando mais precisava deles, mandaram-me de volta para casa.

- Eles não têm culpa. Não os podes culpar. Eu vou-te ajudar. Vem comigo.

Podia ter suspeitado se ele era ou não da polícia, mas o seu ar simpático dava-me a entender que não. Fui atrás dele e, subitamente dei por mim a entrar numa casa que eu nunca tinha visto embora passasse por ali todos os dias.

- Entra – A sua voz era amável.

Entrei. A casa estava quente e o crepitar da madeira dava um ambiente harmonioso à casa. A casa era toda feita de madeira e iluminada somente por uma vela de luz fraca. Sentamo-nos à mesa e ele perguntou-me se eu tinha fome. Não podia mentir, mas também não queria abusar da confiança.

- Não tenhas vergonha. Sou o teu amigo esta noite. Pensa em mim como sendo um amigo. Aceita tudo o que de bom eu te posso dar.

Estava triste, mas a sua presença tranquilizava-me. Subitamente, perguntei-me qual seria o seu nome. Decidi perguntar.

- Como te chamas? – A minha voz soou um pouco esganiçada. A sessão de choro tinha-me feito mal.

- Podes tratar-me por Jesus. Mas não quero que contes nada desta noite a ninguém.

Eu assenti com a cabeça. Não conseguia sorrir. Queria, mas não conseguia. Perguntei-lhe se ele não tinha árvore, ao que ele respondeu que sim. Como que por magia, luzes brancas, azuis, verdes e amarelas começaram a cintilar do canto esquerdo da casa revelando uma robusta árvore bem verde, com neve que ainda hoje acredito que fosse verdadeira, mas sem enfeites fora do normal.

- Eu não devia perguntar, mas porque me acolheste? – Eu estava curioso e não consegui evitar a pergunta.

- Acolhi-te porque estavas necessitado. Acolhi-te porque estavas sozinho. Acolhi-te porque chamaste por mim.

A minha cabeça começava a andar à roda. Como é que eu chamei por ele, se a única coisa que fiz foi chorar? Decidi, no entanto não fazer mais perguntas, porque não estava muito à vontade, mas Jesus parecia conseguir ler os meus pensamentos.

- As tuas lágrimas cristalinas inundaram a neve do chão provocando-me lágrimas de sangue. O teu frio provocou-me arrepios de sofrimento como se estivesse a ser chibatado. A tua voz provocou-me insónias obrigando-me a acordar e a tua respiração fugaz fez-me vir até ti, abrindo caminho por entre a noite e acolhendo-te em minha casa.

As lágrimas estavam-me a voltar aos olhos. Tinha saudades da minha mãe, saudades do meu pai. Decidi contar-lhe a história toda, mas mal abri a boca ele disse para não falar. Esta noite seria minha e tudo o que eu pudesse dizer ele já sabia.

Ele deu-me um prato com uma posta de bacalhau e verdura. Estava cheio de fome, mas reparei que ele não se servia. Perguntei porquê, mas ele disse novamente “esta noite é tua, sou a tua estrela no cimo da árvore que te iluminará. Alimenta-te”.

Jesus deixou-me acabar a refeição e entregou-me um cobertor.

- Agora, podes-te deitar a meu lado, para descansares após este dia agitado.

Eu deitei-me numa cama que estava no canto da casa de madeira e Jesus sentou-se a meu lado. Jesus cantou-me uma canção que nunca irei esquecer e por mais que viva, por mais que sofra esta canção estará sempre a meu lado:

“Dorme João,

É noite de Natal,

As tuas lágrimas irão curar

Todo o amargo mal

O teu sorriso irá confortar

Os teus pais não tardarão

Dorme bem esta noite

Apertando a minha mão”

Já meio ensonado, lembro-me de ter perguntado a Jesus se não iria receber nenhum presente, ao que ele me disse “Queres melhor prenda que receber amor na noite de Natal? O amor vale mais que a vida”.

Adormeci.

Jesus pega no rapaz ao colo e ternamente aconchega-o na cama branca. Sem proferir uma palavra Jesus abandona a casa e sobe a árvore que se encontra ao lado da casa de João. Jesus abre o caminho para o céu. O milagre vai ser feito.

É manhã. Acordei. Tive a estranha sensação de conhecer o lugar onde acordei. Depois de me situar, reparei que estava de novo no meu quarto. Como é isto possível?

Neva lá fora e o meu quarto tem uma estranha luminosidade branca. Nunca antes tinha visto nada assim. Só de abrir os olhos, as lágrimas começam a sair. Parece como que um raio a atravessar os meus olhos de um lado ao outro, ardendo e queimando tudo por onde passa.

Ouvi a porta a arrastar. Assustei-me. Quem será? Quem pode ser? Como vim aqui parar? Eu estava com Jesus e agora estou aqui, em minha casa? Olhei para o calendário. Já é Natal, já é dia 25.

Os pais do menino entraram no quarto, vestidos de branco e oferecem um presente a João.

Jesus encontra-se no olhar de João, no toque de João e no sorriso de João.

Sem dar por mim, ajoelhei-me no chão, uni as mãos em direcção ao céu e olhando para cima disse:

“Obrigado Meu Deus, pelo milagre da vida!”

 

Bruno Costa 11ºCTA